Porto Alegre em Cena abre espaço para elas

Na edição de setembro, fizemos uma reportagem sobre o Porto Alegre em Cena, que traz grandes espetáculos teatrais à capital gaúcha. Confira, na íntegra, as entrevistas com Denise Weinberg, que interpreta o monólogo O Testamento de Maria, e a banda As Bahias e a Cozinha Mineira.

Denise Weinberg em O Testamento de Maria

Quais são os desafios de atuar em um monólogo?
O desafio do monólogo é enfrentar a solidão em cena e no camarim, o que no caso d’O Testamento de Maria é atenuada pela presença do músico Greg Slivar, que me acompanha em cena. O desafio do monólogo é você não ter o apoio de outro ator, não ter o apoio do jogo cênico, e temos que ter um vasto repertório e fôlego para manter a plateia atenta e interessada durante 80 minutos.
Particularmente, eu nunca tive interesse em montar um monólogo, pois o que mais me agrada no teatro é o coletivo, a trupe e a cumplicidade em cena. Mas, desta vez, este texto genial se Colm Toibin me seduziu e me convenceu a montar com a direção fundamental de Ron Daniels, que, aliás, é o mentor deste projeto.

Tu tens alguma religião? Se sim, qual?
Eu tenho a minha fé, não sigo nenhuma religião. Meu pai era judeu, minha mãe, católica, e minha avó materna era espírita. Portanto, fui criada num sincretismo religioso muito grande, o que foi bom, pois abriu minha cabeça diante de tantas possibilidades diferentes, e eu acabei elaborando a minha fé, as minhas crenças nas energias do Universo, sem me apegar a nenhum credo, dogma ou religião. Aliás, sou extremamente avessa à qualquer dogma, principalmente religioso.

O que significa, para você, interpretar uma personagem tão santificada como Maria? Como foi a sua preparação para deixar a personagem mais humanizada, como o texto propõe?
Desde o início dos ensaios, Ron Daniels e eu tivemos a grande preocupação de esquecer a figura mítica e santa de Maria e encarná-la como uma mulher comum, que teve um filho rebelde e sensível e que sofreu como qualquer mãe que se preocupa com seu filho. Isso fez com que a minha preparação fosse focada para aquelas palavras que são ditas com a maior simplicidade, com a maior verdade, com a maior compreensão. Eu me preparei sempre estudando o texto de tal forma que ele ficasse orgânico na minha boca, sem nenhuma afeto, nenhuma representação, nenhum enaltecimento à figura santa de Maria. Ela é simplesmente uma Maria qualquer, como qualquer uma de nós, mulheres, com nossos problemas cotidianos e familiares e isso fez com que minha Maria se aproximasse de um ser humano real, normal, com seus defeitos e virtudes, suas ambiguidades, fazendo com que a peça questione pontos de vista diferentes dessa história tão antiga, mas contada por Toibin de uma forma genial.

Nesse ano, a temática do festival é voltada para as mulheres e a diversidade. O que isso significa para você?
Estamos num momento difícil no mundo inteiro. No Brasil então, é melhor nem comentar muito, porque o retrocesso é enorme. Mas, cada vez mais, as mulheres estão ocupando lugares importantes, abrindo outras compreensões e aceitando mais as diferenças.
Acho que estamos num momento de mudanças de paradigmas, de valores, e, nisso, o machismo, apesar de ainda resistir com muita força, está começando a se abalar com as mulheres liderando empresas, famílias e ocupando cargos políticos. O que acho mais difícil é o homem abrir mão de seus privilégios em cima do feminino, pois ninguém quer sair do posto de liderança. Mas acredito que, com o tempo e a perseverança das mulheres, isso vai começar a se equilibrar e espero sinceramente que um dia homens e mulheres tenham o mesmo valor na sociedade e um profundo respeito entre si. Seria tão mais pacífico, harmonioso e mais fácil, sem disputas nem competições que só levam a uma profunda infelicidade e desassossego.

As Bahias e a Cozinha Mineira traz a diversidade de gênero para o festival

Foto: Reprodução

Mulher é o seu primeiro disco e foi muito elogiado como disco de estreia. Isso cria algum tipo de pressão e/ou expectativa para esse segundo disco?
Com certeza, estamos com muitas expectativas, sim. Mas fizemos um trabalho muito bem embasado nesse segundo álbum, o que nos deixa mais tranquilas também. Uma equipe muito boa a nossa volta garante certo sossego.

Quais são as suas influências para esse novo álbum?
Mais uma vez, Gal Costa, que é nossa musa. Michael Jackson também nos influencia pelo pop ousado e inventivo. Mas são muitas referências pra além dessas. Cito as duas como basilares.

Está disponibilizado somente em plataformas digitais?
No dia 1º de setembro chega às plataformas digitais. E, em meados de setembro e com os shows de Bixa, programados para iniciar em outubro, chegará também a versão física.

Em uma entrevista a outro veículo, vocês falaram que o disco está mais pop e que sentiram falta disso no primeiro álbum. Como não perder a essência da MPB tão presente no som da banda?
A gente entende que a MPB é, também, muito pop. Não existiu esse dilema.

Por que optar uma musicalidade mais pop?
Optamos pelo pop pela inventividade que existe em ser pop e também por estarmos conectadas com sons mais urbanos. Existiu também o anseio pelo formato de musicas menores e andamentos mais dançantes.

Qual a mensagem do álbum Bixa?
Acreditamos que o álbum é rico em texturas, timbres e metáforas. Isso dá a sensação de uma mensagem de liberdade estética na música, o que é muita coisa legal. Inventividade é uma linda mensagem.

Como é para vocês estarem em um festival internacional como o Porto Alegre em Cena?
Amamos muito Porto Alegre e estar num festival pra que possamos apresentar nosso trabalho pra mais pessoas é sensacional! Festival é interessante por justamente apresentar ao público tendências. Ficamos gratas e empolgadas por estar nesse festival.

O festival busca dar espaço para teatro, música e dança. Como vocês veem essa interação entre as artes?
Essas linguagens sempre se cruzam. No palco, cantando também somos atrizes e dançarinas. Já são artes muito íntimas. Por isso, ter acontecendo um festival que as una é muito legal para que se tenha mais espaço e as linguagens ganhem seu merecido protagonismo.

O que significa para vocês um festival como esse falar sobre diversidade e dar voz às mulheres?
Cada vez mais temos que disputar as narrativas. E quanto mais espaços de fala criarmos e mantermos, mais conseguiremos mudar as narrativas opressoras e colocar nossa dignidade e genialidade a mostra.

Foto: Jo Caldas/Divulgação

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